Minha Frase preferida desde o mes de julho de 2013


"A felicidade de um amigo deleita-nos. Enriquece-nos. Não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque (ela a amizade) não existe." Jean Cocteau

Seres Espelhados Espalhando Sonhos e Delírios como eu

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domingo, 7 de outubro de 2012

GRANDE COMO CRIANÇA.

      Todo final da tarde a criançada se reunia no quintal de minha casa. Era um quarto, sala e cozinha, já que o banheiro comunitário ficava  no centro de um terreno de 60 metros por 15, que espremia da metade para os fundos quatro humildes moradias. De frente para a rua, escondendo a pobreza da vila, ficava a do senhorio; um ancião de 70 anos que mais parecia ter 90 pelo desgaste que o tempo lhe causara. Com um cachimbo pendurado na boca tentava e conseguia fumar a vida em longas baforadas empesteando de fumaça a vizinhança.  Pouco tempo depois o velho morria de enfarte provocado pelo fumo no banheiro de sua casa, único lugar aonde,  verdadeiramente, o senhorio se esforçava. Dona Bituh, sua mulher, morreu algum tempo depois abraçada a uma solidão que dava dó. 
     Nos fundos, aonde eu morava,  havia uma cerca viva, alta, com suporte de arame farpado aonde as plantas se dependuravam para olhar a menina de cabelos pretos e de olhos verdes  do outro lado da divisória. Todos os moleques, meus colegas, pretendiam namorar com ela, mas eu os impedia com falsas ameaças. Dizia que o seu pai era bravo e que a mãe jogava água fervendo em quem tentasse olhar através da cerca. Evitar a presença das crianças por ali seria burrice, pois sem  algazarra a garota não aparecia e eu não tinha como justificar a minha presença por ali.
    Certa vez eu escrevi um bilhete falando do amor que me apertava o peito. Amor gostoso de criança que não tem porque medir o tamanho dos sonhos. Eu prometia, em poucas palavras, que a esperaria crescer enquanto eu também cresceria só para me casar com ela. O bilhete ficou velho, amarrotado e rasgado no meu bolso. - Até hoje o tenho guardado na lembrança. Quando ela aparecia próximo da cerca, eu estava longe. Quando eu estava perto, ela não aparecia.
    O tempo se incumbiu de modificar meu corpo e o dela, assim como acirrava os meus desejos e os desejos dela. As minhas preferências e as suas possíveis escolhas se tornaram exigentes, mas a gente nunca soube o que queria.  Quando nos encontrávamos pela rua, ela se fazia acompanhar por sua mãe ou pelos irmãos que me olhavam de cara feia, enquanto eu fazia de um tudo para domar o meu chucro coração que escoiceava no haras do meu peito.
     Essa dor não doía como se dizia, mas sangrava. E foi sangrando que eu peguei, por acaso,  em minhas mãos um convite de casamento com o nome dela. Escondido no fundo da igreja eu a vi aos pés do altar me procurando entre os convidados. Foi assim, com ela me colorindo de verde com aqueles olhos, enquanto o padre pregava, que eu disse adeus ao bairro aonde fui criado. Embarquei no primeiro sono que fechou meus olhos e só fui abri-los longe, no alto da montanha de onde eu vejo o verde atapetando  todos os caminhos por onde eu ando e vou andar até que as paralelas do tempo se cruzem ou a saudade da infância me cale com a morte.
silvioafonso 


7 de mai de 2012

4 comentários:

  1. Um texto muito bom, repleto de lembranças, de vida.Parabéns.

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  2. "Embarquei no primeiro sono que fechou meus olhos e só fui abri-los longe"

    é assi que faço
    odos os
    dias diante do marsomente ele consegue mefazer esquecer o egoismo dos seres
    que tentam
    encobrir o o olhar do mundo sobre os que nasceram para a alegrar a vida de muitos om seu escrever,
    da mesma forma que os enamorados juram que a lua
    brilha só para ser ofertado a ele ou a ela.Mentira deslavada, pois ela se poe no ceu pata todos que
    tenham a benção da visão e podem olhar para ceu
    sem pedir licença a ninguem,
    como eu aprendi que posso.
    Hoje nem o amor baixa mais meu olhar, se eu não quiser.
    Seu texto diz que personagem calou e guardou o bilhetes e penas se deixou ao desencontro até que a paralela da vida mostrasse a encruzilhada onde cada um seguiria para um lado,
    eu no meu roteiro nunca deixei para depois.
    Hoje aprendo a valorizar o agora
    mas a cabeça: livre para virar os pescoço para todos os lados
    e a mente sim,
    essa perto, longo ou e lugar algum.
    Adoro seus textos que trazem
    o ludico com muita destreza em palavras. Viver bem conosco e com os que amamos é um obrigação gostosa e voce sabe fazer isso muito bem,até nas palavras escritas.
    Bom dia e bjis de segunda entre sonhos e delírios
    dos outros

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  3. Narrativa linda!!!

    =)

    O mundo precisa de mais histórias de amor como essa!

    ^^

    Beijão

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  4. Texto excelente, sempre trazendo lições de vida.
    Abração.

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Venho aqui e Olho pro amanhã dessa forma: com ALEGRIA!

Venho aqui e Olho pro amanhã dessa forma: com ALEGRIA!
Já caminhei muito tempo sem me dar conta do quanto é importante o que eu sei, quero e posso. Passei muio tempo dando prioridade a todos ao meu redor. Daqui pra frente meu olhar obedece a uma nova perspectiva, pois minha palavra de ordem é ALEGRIA.Não quero e não vou viver mais um segundo sem esse ingrediente essencial.. Experimentem e depois de contem o resultado. CatiahoAlc, terça feira 05 de janeiro de 2015

Eu sempre entre meus sonhos realizados e meus delírios incessantes...

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