Ele estava molhado e sujo de lama, seus pés sangravam dentro e fora da bota de borracha e no seu rosto a máscara da desolação. Foi desta maneira que ele foi visto no centro da cidade de Nova Friburgo controlando o trânsito que não tinha para onde ir num rio de água e lama. Que ele era um voluntário, disso ninguém teve dúvidas. Que ele largara a sua família e a segurança do seu lar para ajudar os que mais precisavam, poucos ficaram sabendo, porque o que importava para ele era ser solidário na hora da dor. Foi assim que ele mostrou ao mundo o sentido da palavra solidariedade. Ele não se importou se teria ou não o que comer, se encontraria um lugar para dormir, o que importava de verdade era a sua presença, a força que poderia dar ao mutirão e com a defesa civil e as forças armadas formar um exército de incansáveis anjos da salvação.Quantas pessoas, como este jovem cidadão, estavam nesta luta em busca dos desaparecidos e dos muitos que perderam seus entes queridos debaixo de uma montanha de terra, de escombros de suas próprias casas? Essa gente não busca fazer parte da estatística que endeusa os heróis, busca, sim, auxiliar aqueles que viram os seus sonhos e até as suas vidas serem levadas pelas águas que encobriram a cidade, as casas e as vidas. Muitos tiveram ferimentos no corpo e na alma. Cicatriz cuja ferida não sara, não cura passe o tempo que passar.
Eu vi advogado, farmacêutico, gente rica e gente pobre sujos de lama ajudando a retirar corpos de sob paredes e telhados para chorar os mortos que encontravam e os que vivos da morte eram resgatados. Toda a cidade, o povo, o estado, o País e o mundo choram essa dor que não cessa, mas aos poucos por ela vamos morrendo.
silvioafonso





